Tem amigo que vai embora e nunca mais volta, mas escreve sempre. Tem amigo que vai também e que não escreve nunca, mas volta de vez em quando e tudo é tão bom quanto sempre. Tem amigo que vai embora e nunca mais volta nem escreve, e você no começo tem saudades, depois acha que sonhou aquilo e aquela pessoa nunca existiu mesmo de verdade. Tem amigo que mal começa a se transformar em amigo e já segue seu rumo prum lado, você pro outro, e fica em aberto se vão se encontrar de novo ou não, e caso se encontrem, se ainda serão amigos ou apenas conhecidos. Tem amigos ótimos com quem você cai na besteira de dar uma ficadinha e estraga a amizade pra sempre – e pior, às vezes a ficada nem vale a pena. Tem amigos que você nem conhece ao vivo, mas ama ama ama de todo coração e fica torcendo pra que um dia se encontrem. Tem amigo que você adora, mas que não consegue ser seu amigo à distância, então você se conforma em serem apenas web buddies, a menos que ele se mude pra sua cidade ou você pra dele, o que normalmente não acontece. Tem amigo (?) que só gosta da sua companhia quando você está bem. Tem amigo (??) que só gosta de ficar por perto quando você está mal. Tem amigo da onça, amigo urso, amigo-irmão-fadinha, amiga-irmã-caminhoneira e outros amigos bichos, inclusive bicho-grilo, que pode até esquecer seu nome, mas é sempre fofo com você - e com o resto da humanidade. Tem amigo que morre, mas de quem você continua se lembrando e gostando dele do mesmo tanto de sempre... pra sempre. Tem amigo que apronta com você ou se torna tão diferente (ou indiferente) que é como se tivesse morrido mesmo. E tem amigo que está sempre presente, sempre perto, mesmo que só por MSN, telefone ou pensamento, e que parece ter um sexto sentido pra te salvar da solidão, do sufoco, da tristeza, do tédio e do deserto intelectual. Esse tipo de amigo é tão indefinível que pode ser homem ou mulher, rico ou pobre, dez anos mais jovem que você - ou vinte anos mais velho - que não faz a menor diferença. Com ele você pode falar tudo- ou quase tudo, e o que você não fala ele entende, ou nem tenta, o que às vezes é mesmo a melhor coisa a fazer. Com ele você pode chorar até rir e rir até chorar, pode falar mal de todo mundo, até dele mesmo, pode ficar calado junto sem se sentir deslocado, pode ficar de porre junto ou sóbrio enquanto ele enche o cu de pinga – ou então bêbado enquanto ele toma agüinha mineral -, pode comer junto com ele ou passar fome solidária, pode ser mais sério que porco mijando ou mais bobo que bezerro de janeiro, mas não precisa nunca ficar mais desconfiado que cachorro em canoa. Com ele você pode falar de filosofia, psiquiatria ou contar as piadas mais nojentas do universo, e se divertir do mesmo tanto com qualquer um dos assuntos. Com ele você pode discutir futebol ou religião ou gosto musical ou política sem medo de ofender suscetibilidades, mesmo que suas opiniões sejam diferentes ou até mesmo opostas. Com ele você sabe que tem guarda-costas, se for preciso, ou que você mesmo pode acabar de olho roxo numa briga que nem era sua, se for o caso. Com ele basta você levantar a sobrancelha esquerda meio milímetro ou manter o rosto completamente estático, que ele vai entender tudotudo que você tá pensando, talvez até melhor que você mesmo. Com ele a velocidade de emissão e de recepção de palhaçadas e venenos (dirigidos a terceiros, claro) em geral é superior à que você tem com qualquer outra pessoa, até mesmo com o amor da sua vida, porque vocês operam na mesma faixa de onda e pensam tão parecido que é quase telepatia. Com ele você pode jogar par ou ímpar por telefone, porque sabe que ele não roubaria nunca, e ele sabe o mesmo de você. Com ele você pode não comparecer com a conta do boteco num dia ou pagar tudo no outro, porque o importante é vocês estarem juntos, mesmo que um dos dois esteja quebrado. Com ele você pode ficar magoado e sumir um tempo, que ele vai atrás de você pra botar tudo em pratos limpos. Com você, ele tem liberdade pra ficar magoado e te dizer que ficou, e vocês podem resolver tudo na hora, sem guardar coisas ruins. Com ele, você tem zilhões de histórias, e pretende ter muitas mais ainda, porque ele é uma pessoa que você quer na sua vida pra sempre. Com ele você tem o amor e a solidariedade de um irmão sem a rivalidade dessa outra relação. E com você ele – ou, no caso, ela – tem total liberdade pra sair de sua persona menina-meiga-de-olhos-enormes-e-covinhas-de-boneca sem medo de chocar e dizer, equilibrando o celular num ombro, com um cigarro na boca, um copo de cerveja do lado e um taco de sinuca nas mãos, mirando a bola oito no canto – e acertando, a filha da puta – que “homem sensivelzim demais me dá nos coco, viu ?”, fazendo com que você morra de rir a cada vez que se lembra da cena, não importa quantos meses ou anos depois. Tem amigo que é assim, e quando você pensa no quanto ele é especial, você nem se importa de que ele acabe sendo praticamente o único que você anda tendo. Só o que é ruim é que quando você tem um amigo assim, a quem você adora tanto e que faz parte da sua vida tão completamente, você acaba tão mal-acostumado que até se esquece de dizer pra ele de vez em quando o quanto você o ama. Então, só pra garantir : te amo, Jananinha. Eu já te falei isso ?
Então eu tava fodida, quebrada e desanimada. Aí pintou um trabalhinho temporário que ia me dar um troquinho legal que ajudaria a segurar as pontas, no caso de a grana da campanha não sair, ou garantiria um presentim from me to myself, caso saia. Fora a quebrada no tédio abissal que me fita com seus olhos negros e piscantes. E então eu fiquei tão, tão feliz e quase otimista por bem uns cinco dias, mesmo com tão pouco, mesmo com tão menos do que eu era habituada. Então quando tudo foi por água abaixo, em dois minutos, eu nem consegui ficar triste mesmo de verdade ou voltar ao meu pessimismo habitual. Só me conformei. Isso é bom ? Isso é ruim ? Como é que eu vou saber, caralho. Então não vou pensar mais nisso. Vou sair com minha caçulinha e, se me der na telha, hoje eu até bebo. Ou não. Então.
Desejos adormecidos vindo à tona depois de um longo e tenebroso inverno : vontade de comer açúcar, sentir os grãozinhos do cristal trincando entre os dentes; de voltar a tomar umas doses de Jack Daniel’s – mesmo que diluído num iceberg de afundar transatlântico – ou de Absolut Vanilla – pra ficar alegrinha que nem o Yeltsin, mas cheirando que nem, sei lá, a Natalie Portman; vontade de voltar a fumar de verdade, um maço ou dois por dia, e tragando toda a fumaça de cada um dos meus canudinhos suicidas até o filtro. Sem falar no outro, macrobiótico, que pode não ser tão fresco quanto meus mentolados, mas certamente dá mais onda, e se acreditarmos no que dizem, faz mais mal ainda. Não sei se é Tânatos, se é a tal segunda adolescência que se anunciava há algum tempo chegando mesmo de verdade ou se é única e exclusivamente o bom, velho e masoquista tédio pedindo pelamor uma ou duas (ou vinte e sete, trinta e quatro e meia ou duzentas e oitenta e seis vírgula nove) surras de chicote rabo-de-tatu.
Por falar em hormônios : eu tava me achando excessivamente assanhada nos últimos meses, e achando que era a distância do gatim e a impossibilidade de matar a saudade de forma mais, hã, enfática e/ou com maior freqüência, mas ao fazer a ronda pelos blogs de amigas, conhecidas e admiradas, notei que não estava sozinha nessa saliência toda. Pergunto-me :
a)Será que andam botando algo na água,
b)Desmond Morris tava errado e o animal humano também tem época de cio sim ou
c)...é só a “força da primavera”, hem ?
Estudando pra renovar a carteira, achei a cartilhazinha do DE*TRAN relativa a direção defensiva e primeiros socorros na internet. Deslizei sem maiores problemas pela direção defensiva (que aliás, igual a qualquer boianiense de bom senso, pratico desde o meu primeiro dia ao volante, ou não estaria mais aqui pra contar as histórias), mas ao entrar na página dos primeiros socorros, comecei a suar frio e a querer desmaiar só de LER, sem nenhuma foto ou figurinhazinha, as descrições de ferimentos, fraturas, queimaduras, lacerações, eviscerações, amputações, avulsões e hemorragias. Na hora em que li sobre RCP em bebês, meus olhos se encheram de água e eu tive que sair do computador. Segunda adolescência my butt, tô ficando é velha e frouxa, só pode. Ou então é só mais um episódio da nossa antiga conhecida Gasparina, a TPM fantasminha e nada-nada camarada.
Numa queda-de-braço mental comigo mesma o dia inteiro, todo dia. Um lado querendo que eu pegue o gatim pelo braço e a Nina no colo, leve os dois comigo e jogue o resto todo pra cima : que mude de profissão, de emprego (sem nenhum convite ou perspectiva, é bom ressaltar), de cidade, de filosofia de vida, de alimentação, de perfil de consumo, de jeito de me vestir y el carajo, o outro achando que eu tenho mais é que me acalmar, encontrar de volta o vale (das sombras ? de lágrimas ? das bonecas ?) com a forma exata da minha bunda no sofá e me conformar a só sair de lá pra entrar no caixão, quando for a hora - e torcer pra que não demore muito. O mais triste é que do jeito que a coisa vai, acho que sei quem vai ganhar. Será que trocar o sofá adianta ?
Sem assunto – a campanha acabou, estou de volta em casa, tudo está como antes, inclusive o trabalho (num paradão de dar gostosono medo na gente), vamos falar de filmes : vimos quatro de sábado pra cá, todos em DVD – incluindo um que, só depois descobrimos, já está passando nos canais Sky também.
Horton Hears a Who – A-M-E-I. O tipo do filme que, se eu fosse um tantinho mais louca, talvez até lamentasse não ter filhos a quem obrigar a ver este filme pelo menos uma vez por semana até os 12 anos de idade. Inteligente, engraçado, terno, fala de ética a física quântica sem ser chato e com uma estética de animação 2D (apesar de ser em 3D) que eu adoro. Só lamento não ter visto antes – se bem que não creio que toparia abrir mão das vozes do Steve Carell e do Jim Carrey, e em Boiânia, como se sabe, esse tipo de filme só passa dublado nos cinemas.
Wristcutters – Historinha levezinha sobre um purgatório bastante realista (igual ao nosso mundo, só que um pouco pior) pra onde vão os suicidas, este tem pinceladas de road movie, love story e fábula misturados, tudo com desapego e sem muita pretensão. Gostei muito também. Apesar de ser indie, com diretor croata e atores fora do mainstream, não é chato, não é metido a besta e não é nem um pouco pessimista. Pra mim pareceu mais um estranho casamentoménage à trois entre Tim Burton, Neil Gaiman e (felizmente, só na cenografia) Glauber Rocha. Aliás, num momento em que um dos mortinhos descreve o lugar onde estão como “quente pra caramba, nada acontece e não se consegue nem sorrir” lembrei de Karmas. Mas isso foi uma maldadezinha rápida, porque por mais quente e monótona que seja a cidade, a verdade é que eu ri muito por lá. Anyway. Não sei se o filme “é” bom, ruim ou péssimo, porque não sou crítica de cinema. Só sei que gostei. E ainda por cima tem meu amado, idolatrado e adorado Tom Waits, com aquela feiúra que me encanta e aquela voz rouca que me faz suspirar. E fiquei ainda mais simpática ao filme porque, segundo me diz o imdb, grupos de idiotasdo-gooders organizados tentaram boicotar o filme na época de seu lançamento, afirmando que ele fazia apologia ao suicídio. Como se vê, a imbecilidade americana não perdoa ninguém mesmo.
O Engenho de Zé Lins - Esse foi o gatim quem quis pegar, mas eu também assisti quase até o fim (um ataque de sono digno daqueles do Garfield comeu os últimos 20 minutos da minha atenção), e achei bom. Eu sei que li José Lins do Rego quando criança – um ou dois livros, e provavelmente antes da hora, como muita coisa que eu li na infância – mas não me lembro de muita coisa, só que gostei. Se não fosse por mais nada, só ver Ariano Suassuna contando histórias e rindo da ingenuidade do amigo (com aquela ternura cínica que só quem nos quer bem pode ter) já valeria o valor da locação. Mas juro que eu poderia ter vivido o resto da minha vida sem ver aquela foto de Gilberto Freyre peladón. Se não fosse a legenda do filme – absolutamente necessária pra quem não consegue entender voz de boca-no-travesseiro - que tampou o pior da fotografia, acho que tinha incorporado um Édipo e arrancado meus olhos perante tanto horror, hahaha.
Away From Her – Eu sempre adorei a Sarah Polley como atriz, e estava curiosa pra ver sua estréia na direção – e adaptação de roteiro – faz tempo, mas vinha adiando porque tinha medo de ficar deprimida e me arrebentar de chorar com este filme - por tratar de Alzheimer, um tema que é o meu maior medo, e por eu já não estar especialmente saltitante pra começar, nos últimos tempos. Adiei tanto que o filme estreou na TV a cabo antes de eu tomar coragem de alugar o DVD. Mas aluguei. E fiquei feliz ao ver o quanto a Sarah toca o filme com mão leve, tanto que eu me vi assistindo a tudo de olhos secos e sem nó na garganta, apesar de envolvida e devidamente identificada com os personagens todos. Só fui chorar – e pouco, e de leve – quase no fim, na hora em que a Julie Christie se esquece de como conjugar um verbo irregular. Provavelmente isto seria o que mais doeria em mim, a eterna sabichona super faladeira e apaixonada por palavras. Mas enfim : vi, e não me deprimi, não tive pesadelos, não fiquei com vontade de cortar os pulsos e acordar em Palmas num carro velho com um buraco negro no assoalho, nem mesmo pra encontrar my beloved Tom Waiting for me. Donde se conclui que minha psique é uma rocha (calcária, probably, but rock just the same). Acho que agora até posso criar coragem pra ir ao cinema e assistir a Ensaio Sobre a Cegueira.
P.S. - Essa locadora é tão legal que até o vigia do estacionamento é a ca-ra do Giancarlo Esposito. E agora me ausento, porque fomos devolver esses quatro e pegamos mais três. E um deles é com o Robert Downey Jr., porque eu sou uma senhora honesta, mas não sou de ferro (wink, wink, nudge, nudge)...
Cheguei. Na verdade, cheguei ontem, mas se você pensar que eu estava há pelo menos 26 horas sem dormir; que o táxi que ia me pegar às 4:40 da madruga em Karmas me deu o bolo e eu tive que sair campeando outro na rua deserta e escura, num cenário de pesadelo muito real, pra depois levar a meia hora seguinte entre o cheiro indescritível (não, não no bom sentido) do táxi e o som sertanojo que o motorista botou pra tocar bem alto; que ultimamente “resolvi” ficar tensa ao voar; que o avião estava cheio de crioncinhas estridentes e que há muito tempo eu não via minha caminha, vai entender que ontem “eu” era pouco mais do que um corpo presente com olheiras dignas de modelo da WWF, e que só hoje de manhã foi que eu-eeeu, a-nível-de-Cynthia-e-enquanto-mim-mesma efetivamente cheguei.
Mais cheia de boas intenções que o inferno inteirinho e todos os seus anexos, tentei manter as coisas boas que aprendi em Karmas : acordei cedo, tomei café direitinho, tomei banho rapidinho – só não tive coragem de encarar água fria, como fazia por lá, mas amanhã eu tento de novo, de preferência numa hora em que estiver fazendo mais calor -, fui ao médico sem atrasos (perdi 3 kg, yeah !!), passei no meu trabalho daqui pra pedir sursis até segunda-feira (minha chefe não estava, mas eu deixei recado e, a menos que ela me ligue antes, só volto lá dia 06), fui ao supermercado. O tempo todo eu ia calminha, mesmo depois da última ursada do Bundibanco pra com minha pessoa, bonitinha, sem falar palavrão (o pessoal com quem eu fui colocada no começo lá em Karmas quase não falava e eu não queria chocá-los, e quando eu finalmente encontrei minha turma, já tava na hora de vir embora). Lá ia eu, sonsinha e zenzinha que nem um mestre yogue, congelado no meio da cara um sorrisinho beatífico de onde só faltava sair baba, sem me permitir irritação com o trânsito de sempre, apreciando o verde e a beleza da cidade em plena primavera, sentindo as nuvens negras cheias de chuva se acumulando no horizonte e me deixando feliz, falando bobagens ridículas sozinha (tais como “Goianiazinha bonitinha da titia”. É, eu sou boba assim mesmo, me deixem.), jurando que agora eu sou uma nova mulher e nunca mais vou deixar que nada me tire do sério à toa, e... e aí um idiota num Fox preto me cortou, me fechou e virou à direita na minha frente em alta velocidade – e sem a menor necessidade. No susto, claro que eu apertei a buzina com gosto. Ele, nem um pouco envergonhado por estar errado em vários níveis diferentes, me mostrou o dedinho com o qual ele certamente ama a si mesmo nos momentos mais solitários, e eu, mui educadamente, respondi expondo a ele o meu próprio dedinho da tecla mi (ou da corda si, para os violonistas. Quem tocar sax, flauta, triângulo, berimbau eletrônico, campainha ou galinha que descubra sozinho que dedo é esse, tá ?)... e ao mesmo tempo caía na gargalhada. Eu sabia, eu sabia. Não tem bom propósito, decisão de ano-novo em outubro nem alma zen que resista aos mautoristas de Boiânia. Então tá, agora eu tô de volta MESMO. Euzinha, a de sempre, chata, griladinha, mal-humorada, boca-suja e impaciente. Se pudesse, ainda incorporava uma Kátia-Flávia e mandava pelo rádio meu recadinho a todos os condutores feios, sujos, malvados, cornos e filhos de puta com charreteiro de toda a graaaande Boiânia : tô de volta. Ratifudê, putada.
Quando me disseram quem seria o responsável pelo marketing político da campanha aqui em Karmas, eu, que só conhecia o cara de nome, interiormente já me predispus a gostar dele, partindo da premissa de que quem é – ou foi – tão amigo do grande, maravilhoso e saudoso Robertinho* só podia ser gente boa. Quando finalmente nos conhecemos, não formei opinião imediata. A cara de bravo não me assustou nem um pouco, já que eu também tenho uma dessas e sei que freqüentemente isso é só defesa, um jeito assim meio Ferrero Rocher** de ser. Além disso ele era muito educado, sua expertise era óbvia, o bom senso também, então ok, tudo bem.
Depois de alguns dias com diferentes opiniões sobre o trabalho, meu gênio ruim começou a se manifestar, e o dele também apareceu. Eu não sou muito boa com autoridades. Ele não é muito bom em ser contrariado. Num determinado dia, em que eu estava especialmente grilada, argumentei, discuti, me defendi, arenguei mais que o meu normal. Ele meio que apelou e me passou um sermãozinho. Fiquei muito puta com o cara, e quem me conhece ao vivo sabe o quanto minhas raivas relacionadas a trabalho costumam chegar depressa e demorar a passar. Só que desta vez a irritação sumiu antes mesmo de eu ter o tempo e a cabeça fria de notar que sim, ele é gente muito boa mesmo, de verdade, ou de admitir que eu estou feliz por tê-lo conhecido e tido a chance de trabalhar e de aprender com ele. O que agora eu já admito sem problema, by the way.
O engraçado – e é aí que entra o título do post – foi o motivo da minha ira passar antes do habitual : foi única e exclusivamente porque ele falou uma determinada palavra. Não, não foi “abracadabra” nem nada parecido. Muito menos “Desculpa” - I should be so lucky. Foi uma palavrinha à toa, desimportante, das mais comuns, e nem foi dirigida a mim. Mas acontece que ele tem um sotaque nordestino bem forte, que nem mesmo os anos passados morando em outros lugares conseguiram apagar. À parte eu achar uma fofura o sotaque pernambucano – que na verdade nem é exatamente o caso -, esse sotaque faz parte das minhas memórias afetivas mais antigas – e das mais recentes também. Explicando : meu avô paterno era maranhense (e bravo), e por isso, mesmo sendo goiano meu pai herdou um pouco do seu jeito de falar – e de ser bravo, hohoho - , então também tem essa sutil nordestinidade na fala. É coisa leve, esparsa, um “sabunete” aqui, uma “cibola” ali, um “oxente” irritado quando menos se espera... e, bom, eu sou Electra mesmo e não nego, cês sabem. Além disso o Gatim, que apesar de matogrossense, teve pai baiano, vez em quando ressuscita o velho Comandante Nelson por instantes em sua fala, seja num repentino “apariceu” ou numa meiga “bór-buleta”, que por alguma razão me deixam que nem a Jamie Lee Curtis ouvindo o Kevin Kline papagaiar italiano ou o John Cleese falar russo no filme aquele (Sai pralá, Sigmund, não Freud, cara.).
Daí pra eu juntar meu amor filial e, er, netal ? (Tem uma palavra pra “relativo a neto”, alguém sabe ? Hello-o ?) ao imenso amor pelo gatim e ao jeitinho Bahia-ao-Piauí de falar, e pro meu estranho cérebro fazer e gravar de vez no HD, sem direito a “delete”, a equação “sotaque do nordeste + homem admirável (inteligente + fofo)2 = afeto imediato” foi um pulinho.
E foi por isso que naquele dia, há uma semana ou duas (ou três, que eu já perdi a noção do tempo aqui em Karmas e só sei que vai chegar dezembro mas não chega outubro), enquanto ainda estava soltando fumacinha pelas orelhas de raiva do meu colega-em-chefe aqui, depois de levar o tal sabão (que agora admito, bem baixinho e só aqui entre nós e a internet, até que foi merecido), senti toda a irritação evaporar de uma vez, simplesmente porque ele falou, ao telefone, que alguém ou alguma coisa ia ou não “aparicer”. Foi o que bastou pra eu deixar de ser beishta imediatamente, voltar no mesmo instante a achá-lo fofo e a ir de novo com a cara do cabra, visse ? Ainda bem que ele não falou bór-buleta, senão eu era capaz de matar o homem de susto, tascando-lhe um beijo na carequinha incipiente na mesma hora.
Felizmente, nem um nem outra guardamos rancor e, mais cuidadosos com os calos um do outro, fomos melhorando a convivência devagarinho. Acho que agora já estamos trabalhando superbem juntos, e é quase uma pena que o período esteja chegando ao fim – aparentemente, eu nem sabia, mas sentia falta de “duplar” com alguém bom de texto.
Anyway, não brigamos mais (pelo menos a sério), e depois disso ele ainda mostrou, várias vezes, que era mesmo 100% merecedor do sentimento mais raro que se pode arrancar de mim : respeito. Não aquele básico que se deve a todo ser vivo, mas um respeito profundo, quase reverência, por alguém que realmente se mostra digno dele em todos os momentos. Ele pode não ser tão desbocado (pelo menos com “damas” por perto, hehehe), irreverente, maluco e irresistivelmente engraçado quanto o Roberto (que aliás, além de tudo tinha um sotaque-Ricife DELÍCIA e era a cara do meu amado Mel Brooks), mas fico feliz em saber que a estirpe dos cabras-machos de responsa não morreu naquele dia triste de abril em que fomos ao enterro do Bob. Meu novo amigo pode não saber, ou se importar, mas querendo ou não, nos dois últimos meses ganhou, sem fazer força, meu respeito e meu carinho pra sempre.
Resumo da ópera do cordel : se eu antes já acreditava incondicionalmente no poder da arte da palavra, agora vou ter que me conformar também com a força e o pudê afetivo do sutaque nordéish-tino. Oxe.
*Pra quem não leu, eu falo dele num post do dia nove de abril deste ano. Como o uol blog não tem permalink - ou se tiver, eu não sei como mexer com ele -, quem se interessar é só olhar nos arquivos.
**Aquele chocolatinho crocante por fora, derretido por dentro... and a full nut deep inside, hahaha...
putz, o locutor da grobo acaba de falar "bandeira amarela sendo 'gesticulada'"
Nelson Moraes diz:
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
Nelson Moraes diz:
Ela tá gesticulando mesmo: tá mostrando o dedo médio pra ele.
Cynthia diz:
Hahahahahaha
Nelson Moraes diz:
E gente chegando no meu blog atrás de Jack Bauer pelado...?
Cynthia diz:
eita
Nelson Moraes diz:
Dá vontade de mandar irem tomar 24 horas no cu.
Cynthia diz:
hahahaha, cruizcredo. assim num tem ku que agüente. nem ky.
Cynthia diz:
Vishmaria, tem alguém da vara da infância e da juventude do RJ no meu sitemeter. É hoje que eu vou em cana...
Nelson Moraes diz:
Hahahahahahahahahahahahahahaha
Cynthia diz:
vai rindo... depois quando eu aparecer tampando a cara no jornal nacional eu quero ver...
Nelson Moraes diz:
Uai. Que ato atentatório cê pode ter cometido no blog?
Cynthia diz:
hehehe, fiquei olhando pra criancinhos de 22 anos com cara de véia sem-vergonha
Nelson Moraes diz:
É. Ped*filia.
Cynthia diz:
Também não exagera, foi uma PedRofilia, no máximo.
Nelson Moraes diz:
Fica xavecando fidazôta, dá nisso.
Cynthia diz:
né fio da zôta não, sô, é da zabé, aquela-uma do vôlei...
Cynthia diz:
Falar em Pedrofilia, e quem gosta de pum na hora do vamovê, tipo o James Joyce, é o que, peidófilo ?
Nelson Moraes diz:
Hahahahahahahaha...
Nelson Moraes diz:
...é que a profissão da fdp é mulher de milionário. O cara é bronco, ela é burra, e os dois nadam em dinheiro. La vie en rose.
Cynthia diz:
É... e nóis, tão inteligentinhos, nessa dureza. La vie est une merde
Nelson Moraes diz:
Mer de merde.
Cynthia diz:
Hehehehe
Cynthia diz:
La mère des mers de merde.
Nelson Moraes diz:
Eu ia até concordar com o cara que disse que a única vantagem da solidão é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta - mas como fazer isso com a Nina me encarando?
Cynthia diz:
HAHAHAHAHAHAHAHAHA
Nelson Moraes diz:
E ela ainda olha como quem diz "Que cara é essa que cê tá fazendo enquanto tá aí sentado?"
Cynthia diz:
Essa gata não tem olfaaaaaaaaaaaaaaaato...
Cynthia diz:
E o coleguinha aqui é mesmo uma fonte inesgotável de risos e nojos e secreções corporais. Ele tinha dado uma diminuída na extração catotal, até pensei que o Xxxxx tivesse falado com ele... aí hoje ele tava tirando coisas... tcharam... DO OUVIDO, hahahahaha... e pra não sair da dieta, continua roendo unhas enriquecidas e vitaminadas depois...
Nelson Moraes diz:
Hahahahahaha. Só espero que ao final da campanha ele não comece a tirar badalhoca do rabo.
Cynthia diz:
Aaaaaaarrrgghghh... vou ali vomitar e já volto.
Cynthia diz:
Lindo, cê num vai acreditar. Agora ele tá palitando os dentes DE TRÁS com uma tampa de caneta Bic. E engolindo tudim.
Nelson Moraes diz:
Caramba
Cynthia diz:
Ele é um sistema fechado, né possível. Tudo que o corpo dele produz ele mesmo come. Deve ser por isso que eu nunca vejo o cara sair pra almoçar. Aposto que ele até só bate umazinha apontando pra própria boca, pra não perder nada.
Nada pra fazer no domingo, nada de TV a cabo, nada de conseguir dormir até meio-dia, nada de paciência pra ler o tijolaço que eu trouxe, nada de roomie, que foi trabalhar, fico aqui vendo uma partida de vôlei de praia entre uma dupla brasileira e uma alemã, enquanto lavo calcinhas na pia do banheiro e tomo café da manhã no quarto – convém explicar que não é room service não, queridos, é que o café do hotel é tão fraquim, tão pouquim, tão quase inexistente, que desisti dele de vez faz tempo : achei um supermercado, abasteci o frigobar e agora eu mesma faço meu breakfast at Karmas' todo dia. Mas voltando ao vôlei : torço pelo Brasil, claro, mas penso seriamente em desligar a TV, de pura impaciência, lá pela oitava vez (em cinco minutos) em que um ou outro dos narradores ou comentaristas fala que o Pedro é filho da Isabel e só tem 22 anos. Como o jogo tá bom, continuo assistindo. E ao notar os deltóides, as sobrancelhas grossas, o sorrisão branco, os lindos cílios e a cor chocolate-ao-leite da pele do Pedro, sua beleza máscula (uiuiui) tão indiscutível que nem o bigodinho motorista-de-ônibus-e-galã-da-vila consegue atrapalhar, começo a achar bom que eles digam a todo momento o que já não me parece tão óbvio : ele só tem 22 anos, ele é um menino, é um menino, é um menino... logo eu, que nunca achei graça em homem novinho, nem quando era novinha eu própria, nunca liguei pra medalha de ouro e sempre suspirei por um cabelinho de prata. Acho que preciso voltar pra casa logo, viu.
Este post provavelmente vai parecer meio esquisito, e com razão. É que eu tô completamente chocada, indignada, revoltada, e como não posso devo nem desabafar direito, já escrevi, reescrevi e triescrevi essa droga até ela virar um monstro de Frankenstein retratado pelo Picasso durante a very bad hair day.
E olha que eu tomo cuidado pra não me sentir assim. Eu bem que tento não cutucar meu feminismo hidrófobo pra não enfartar. Eu chego a deixar na prateleira da livraria um volumeque me chamou, piscou e fez fiu-fiu, pra ele não me provocar um AVC. Eu mudo de canal diante de um certotipo – nah, de vááááários tipos – de notícias, pra não ter um surto psicótico.
Só que tem coisas que saltam na frente da gente de repente. Ou pulam de trás de uma árvore. Ou caem do teto, feito uma lagartixa repentinamente abandonada pelas forças de van der Waals(obrigada, dotôra). A mais recente lagartixa cadente que me mostraram, com laudo do IML e tudo, eu não vou contar pra vocês porque pode dar problema pro meu lado. Basta dizer que, por menos que eu fosse com a cara feia da figura em questão, não imaginava isso nunca, e tô passada, dobrada e guardada no closet.
Mas eu não vou falar mais disso. Nem usar a informação. Na verdade, não vou nem me perguntar silenciosamente que país é este, já que sei muito bem (bem até demais), e já que nunca me esqueço de que, por aqui, todo mundo se esquece de crimes contra a mulher, principalmente se ela sai viva no final, não importa que idade tenha. Afinal, como já teve a cara de pau de afirmar um senhor que depois disso já esteve entre os mais votados de São Paulo, “tudo bem, se está com vontade sexual, estupra, mas não mata.”
Não, nada disso eu vou fazer, em nome da proteção da minha já combalida saúde e das já excessivamente tensionadas, apesar de inexistentes, fibras da imaginária derme do meu metafórico saquinho. Mas vou, sim, feminismo hidrófobo notwithstanding, ficar pra sempre fascinada com o diâmetro e o peso de los cojones, por mais conotativos que sejam, de quem ainda tem coragem de ter filhos (e principalmente filhas !!) numa Terra dessas. “Terra com maiúscula, Cynthia ?”. É, sim : tô falando é do planeta.
Assim como existem as expressões “carioca da gema” (nunca entendi o que a carioquice tem a ver com os ovos, mas enfim), “corintiano dos quatro costados” (Hem?), “baiano arretado” e outras bobagens supostamente atestatórias de que a figura em questão não seja um carioca falsificado, um palmeirense infiltrado ou um impostor piauiense disfarçado de baiano, também existe uma forma horrorosa de se dizer que alguém é goiano de verdade : é a famosa – ou melhor, infame – expressão “goiano do pé rachado”, que se por um lado consegue ser mais feia que todas as outras juntas, por outro pelo menos tem uma explicação lógica. É que, graças (?!) ao clima infernalmente quente e deserticamente seco daqui durante no mínimo 6 meses – às vezes mais, hello, global scorching warming ! - por ano, a pele das pessoas costuma ficar muito desidratada, chegando até mesmo a rachar, feito o solo do sertão em tempo de estio. Áreas que normalmente já são mais secas, como joelhos, cotovelos, e óbvio, as solas dos pés, são as mais afetadas. Não sei por que o pé foi escolhido para a expressão. Talvez por eufonia, talvez por desambiguação (“goiano do cotovelo rachado” poderia dar a entender que aqui a incidência de dor de cotovelo fosse maior do que no resto do Brasil, e “do joelho rachado”, que fôssemos excessivamente carolas), talvez por pura economia de sílabas.
Apesar de não ser a mais vaidosa das mulheres, de ter birra de salão, de mani-e-pedi e de ser radicalmente contra rapa-pés até mesmo no sentido literal, sempre usei creminhos suficientes para preservar meus simpáticos pés contra o apelidinho tenebroso e a realidade ainda mais tétrica que o originou. Minhas patinhas até ficam ressecadas, claro, mas nunca o suficiente pra ferir minha cútis de lírio (hohoho) ou pra poder disputar feiúra com pés de paquidermes. Mas estou apreensiva. É que quanto mais se avança rumo ao equador, piores são as condições climáticas. Estou em Boiânia - em sursis - desde sábado, mas volto pro paralelo 13 hoje. Hélas, os meus dois meses de Karmas ainda não chegaram ao fim (quinze dias ainda, and counting) e eu já tenho que passar mais creme a cada dia, e mesmo assim, às vezes, depois do banho ou ao acordar, a pele chega a doer de tão seca e esticada. Não vou me descuidar, mas tenho medo de, mesmo assim, chegar ao fim desse período como coisa ainda pior do que uma goiana do pé rachado : como uma karmense, e não de modestos pés rachados, mas sim de cascos. Fendidos.
De tanto (e tanto e tanto e tanto) ouvir, já sei de cor e salteado o hino de Karmas, erros de português e tudo – com aquela velha mania do brasileiro de querer ser “poético” apelando pra segunda pessoa “tu”, mas conjugando os verbos do pretérito todos com o “s” no final, que só vale para “vós”. Tudo bem, o Cartola também fez isso. Mas ele era pedreiro, compositor popular, e o que tinha de talento compensava bastante pelos pequenos erros oriundos da educação formal insuficiente. Mas digrido. O que eu queria dizer mesmo é que o verdadeiro hino de Karmas deveria ser a música-tema de Carruagens de Fogo. Aquela que, quem viu o filme sabe, pede – ou melhor, exige – que toda e qualquer ação, por menor, seja realizada em câmera ultrale eentaaa...
Aliás, o povo daqui (garçons, concièrges – heh -, balconistas etc.) poderia facilmente dar aulas de atendimento tanto aos franceses quanto aos baianos. Não porque sejam algum primor de delicadeza e agilidade, mas sim porque deixam no chinelo tous les deux em suas respectivas, hã, marcas registradas de atendimento ao público.
O público é outra história. Seja numa reunião de cabos eleitorais das classes C e D, seja num restaurante por quilo “chique”, todos parecem filhos únicos de mãe viúva, velha e rica, ou seja : têm plena convicção de que o mundo existe para servi-los, e de que têm total direito de fazer o que bem lhes der na telha, tanto em termos de (des)respeito às leis de trânsito quanto a filas, pessoas idosas, boas maneiras, decibéis máximos aceitáveis, sinais vermelhos etc. Ou seja (e como eu já disse antes ) : são iguaizinhos ao povo todo do resto do Brasil. Acho que o negócio vai ser emigrar mesmo. Como será que eu faço pra pedir asilo, er, filosófico, hem ?
ou UM MINÚSCULO AFOGAMENTO E UM COPO DE BATIDA DE PITANGA
Eu tinha acabado de escrever outro post furibundo pra botar aqui, xingando uns e outros, sendo malvadinha, sarcástica e venenosa pra tentar me consolar da tristeza, das saudades de casa, da minha felina filha e do monamu, da falta de grana e das contusões, equimoses e ralados impingidos ao meu pobre orgulho, diariamente espancado e ferido por aqui. Mas aí fui falar com o gatim pelo MSN e ele me disse que o livroda Fal tinha chegado lá em casa, e ainda “leu” as dedicatórias pra mim. A impressa, que ela fez pro Alexandre, e a manuscrita - à caneta e com a letrinha dela -, que nossa frô fez pra gente (eu, gatim e Nina). Reações ? Ah, diversas : meu coração derreteu, meu veneno errou de rumo e se perdeu (roubei sim, e daí ?), minha irritação se liquefez completamente, tanto que chegou a transbordar um pouquinho pelos olhos... e quando a onda inesperada de amor e ternura que quebrou na minha praia refluiu um pouco, não vi mais nem sinal da raiva que eu estava sentindo do mundo inteiro até então. Acho que a bichinha se afogou... ou então saiu pingando, envergonhada do caixote, e foi se sentar debaixo de um coqueiro, de cabelim lambido e drinque colorido na mão, ronronando bem baixinho. Pode até ser que ela ainda volte, mais cedo ou mais tarde, mas pelo menos vai estar mais bonita e bronzeada. E o marzão continua lá, firme, forte... e pra sempre. Te amamos, Fal.
Nada-nada (nada mesmo) contra pessoas que sabem seu próprio valor, confiam no seu taco, no seu bom gosto, em sua educação, instrução e/ou erudição – mesmo que a soletrem, sei lá, com h ou ss -, que gostam da própria aparência, voz e porte, que se conhecem profundamente e ainda assim se estimam e se amam to bits. Mas pelamor, cadê o famoso e sempre bem-vindo grano salis, putada ? Não rola um pouquinhozinho só, por minúsculo que seja, de auto-dúvida, de humor autodepreciativo, com ou sem hífen, e de pulguinha cantando “talvez, talveeeez você não seja a última molécula de H2O do Saara, viu, fofo(a) ?” atrás da orelha do ser senciente, não ? Algo que funcione que nem aquela pitadinha de bicarbonato que não deixa o bolo ficar nojento de tão doce e evita que ele afunde e sole em sua própria chocolaticidade rica e densa, cadê ? Porque, vou te falar, quando a dose de “sou lindo(a), gostoso(a), maravilhoso(a), talentoso(a), sedutor(a), tesudo(a), interessante, sensível, irresistível e genial (uf)” só varia de over a hiper, até a parte boa começa a bichar, e aí não tem antiemético (com hífen ou etc.) que dê conta. Nessa hora, meu cerebrozinho disléxico começa a jurar que foi esse povo e não ele quem leu errado o velho clichê “é chato ser gostoso” e começou a crer, do fundo mais profundo e meditabundo do seu EEEEEUUUUÔÔÔÔ superior, sedoso, malhado e vitaminado, que o gostoso mesmo é ser chato(a). Ô, raca. Sem cedilha.